A banda Silencer se formou em meados de 1995 em Stockholm. Foi uma das primeiras do gênero que passou a ser conhecido como “suicidal black metal”, um estilo agressivo marcado por letras absolutamente radicais repletas de niilismo, misantropia e fúria, capaz de glorificar o suicídio, nazismo, massacres e destruição. O caos é uma das marcas registradas do gênero que possui fãs na Escandinávia, sobretudo na Suécia.

O primeiro demo do Silencer, foi lançado em um circuito comercial limitado em 1998, trazendo uma única música intitulada “Pierce me” (“Fure-me”), com quase 11 minutos de duração. A faixa é marcada pelos urros guturais do vocalista. Diz a lenda que a gravação apresenta vários problemas de mixagem, mas que ela só pôde ser executada uma vez, já que o vocalista teria se auto-mutilado durante a gravação em estúdio. Verdade ou mentira, o som estridente e medonho dos seus gritos acabaram chamando a atenção de uma gravadora alemã, a Prophecy Productions, que no ano seguinte assinou um contrato com os membros da banda. Apontado como uma grande promessa do Doom Metal, a banda chegou a ser comparada com os alemães do Bethlehem, os pioneiros do gênero.

Apesar de existir desde meados da década de 1990, há poucos registros de que o Silencer tenha se apresentado em público. Existem dois vídeos de péssima qualidade que se supõe serem performances da banda, ambos em clubes na Suécia. Um deles sequer pode ser chamado de show, uma vez que tudo o que se vê nos quase 12 minutos da escura gravação são pessoas gritando, brigando e correndo num palco improvisado.

O Silencer teria concedido apenas uma entrevista em sua carreira, uma imposição da gravadora que exigiu essa condição para não romper o acordo contratual. Apesar dos membros terem concordado, a “entrevista” se resume a algumas perguntas dirigidas aos músicos que apenas grunhem de forma monocórdia e gargalham. Não é à toa que depois disso, a banda perdeu o apoio da gravadora.

Pouco antes porém, o Silencer apresentou um video-clip para a música “Sterile Nails and Thunderbowels” uma verdadeira colagem de cenas bizarras com direito a mutilação e sexo-explícito extraídas do filme experimental alemão Begotten (de E. Elias Merhige). O vídeo não chegou a  ser lançado pois o diretor não autorizou o uso das imagens de seu curta metragem pela banda. Apesar disso, ele acabou caindo na internet e pode ser conferido no final desse artigo.

Em maio de 2000, o Silencer aproveitando a controvérsia sobre o vídeo gravou sua única obra completa, com o título “Death, Pierce Me”. Na gravação Nattramn dá mais uma mostra de seu estilo bizarro em que as palavras nem soam como algo inteligível. Numa das faixas não há letra, apenas uma única frase urrada repetidamente: “Cortem a minha garganta! Cortem a minha garganta!”

Mais uma vez a gravação foi marcada por rumores. Técnicos de som teriam se negado a trabalhar com o vocalista alegando que ele não era profissional. Alguns boatos davam conta que Nattramn teria mutilado as próprias mãos e o rosto com uma faca em pleno estúdio deixando os técnicos apavorados.

Apesar das dificuldades, o álbum foi lançado em 2001 acompanhado de enorme controvérsia. A capa do disco, que mostra Nattramn quase irreconhecível, ensanguentado e com uma meia cobrindo a cabeça por pouco não foi proibida em plena Suécia, país conhecido pela sua tolerância. Na fotografia, patas de porco surgem nas mangas de sua camisa manchada de sangue em uma composição por si só perturbadora. Ainda que tenha sido liberado em seu país natal, ele não teve a mesma sorte na Inglaterra e Alemanha onde uma capa preta substituiu a imagem.

Atraindo a atenção da mídia, rumores começaram a circular afirmando que o vocalista do Silencer sofria de alguma doença mental. Nos créditos do álbum ele agradece as companhias farmacêuticas que produziram medicamentos que ele alegava tomar e que permitiram concluir a gravação. “Sem essas maravilhosas drogas, eu não conseguiria chegar ao fim do trabalho!” teria escrito a respeito de drogas controladas, destinada a pacientes com esquizofrenia.

Mas o mais bizarro ainda estava por vir.

Nattramn publicou uma carta em que revelava a sua admiração por um assassino em série sueco chamado Thomas Quick. Na carta, ele contava que seu sonho era seguir os passos do maníaco que assumiu a autoria pelo assassinato de oito meninas e alegou ter cometido outro 22 crimes. “Eu vou matar meninas e ser tão famoso como Thomas Quick” ele escreveu na carta.

Ninguém levou muito à sério as palavras de Nattramn, afinal tudo indicava que se tratava apenas de um golpe publicitário para prender a atenção da mídia. Contudo, alguns meses depois o vocalista do Silencer foi preso em um parque na cidade de Ljungby, acusado de agredir e ameaçar frequentadores com um machado. Segundo o boletim da ocorrência, o músico teria perseguido um grupo de pessoas brandindo a arma enquanto gritava enlouquecido. Uma menina de seis anos teria sido ferida durante a confusão. Ele ainda tentou fugir em uma bicicleta, mas foi alcançado por policiais. Ao receber voz de prisão Nattramn implorou que o matassem.

Diagnosticado como esquizofrênico, psicótico e maníaco depressivo, Nattramn foi internado no Hospital Psiquiátrico de Vaxjo. Houve estórias de que ele tentou escapar e esses boatos acabaram causando enorme comoção na cidade. Habitantes acreditavam que além de escapar do manicômio, ele estaria armado com um machado, disposto a fazer valer as suas ameaças. Os rumores se mostraram infundados.

Durante sua internação, o músico começou a escrever um livro de memórias como forma de terapia. Em 2011, o livro Grishjarta (“Coração de Porco”, em sueco) foi publicado. Em 2012, ele recebeu permissão para sair da instituição (acompanhado de policiais e responsáveis) para gravar um álbum intitulado Transformalin.

Apesar de submetido a tratamento para controlar a esquizofrenia, os médicos não deram alta a Nattramn uma vez que ele foi considerado potencialmente perigoso no caso de uma interrupção do tratamento.

Não existe uma previsão para sua liberação de Vaxjo. Uma petição pública, assinada por vinte mil pessoas foi entregue ano passado ao Ministério Público Sueco pedindo que ele seja mantido no manicômio.

Em tempo: Nattramn não é o nome verdadeiro do sujeito. A palavra se refere a um pássaro lendário da mitologia nórdica que se alimenta da alma de crianças. Simpático, não?

Aqui está o vídeo de “Sterile Nails and Thunderbowels” (com legendas em espanhol):