Febrônio Ferreira de Mattos era conhecido como “Filho da Luz”.

Febrônio foi preso depois de ser acusado de ter cometido vários delitos, incluindo fraude, chantagem, suborno, furto, roubo e vadiagem, em consequência das quais sofreu sua primeira detenção, no presídio da Ilha Grande.

Na cadeia, ele contou que teve uma visão na qual uma mulher de longos cabelos loiros o havia escolhido como o “Filho da Luz”, título que “lhe trazia a incumbência de declarar a todos que Deus não havia morrido”. Ainda segundo a visão, ele deveria tatuar-se e tatuar meninos com os símbolos ‘DCVXVID”, que significariam Deus, Caridade, Virtude, Santidade, Vida e Ímã da vida. Nessa época, ele começou a escrever “As revelações do Príncipe do Fogo”, que publicou em 1926.

Quando saiu da cadeia em 1921, Febrônio circulou entre o Rio de Janeiro, Bahia, Espírito Santo e Minas Gerais, retornando à delinquência através de estelionatos e outros crimes.

Utilizando diplomas furtados, praticou o falso exercício da Odontologia e da Medicina em cidades do interior do País, causando lesões e mortes em virtude dos tratamentos que prescrevia.

De volta ao Rio de Janeiro, foi preso no final de 1926. Como apresentava idéias delirantes e mentia compulsivamente, foi encaminhado para o Hospital Nacional de Psicopatas, de onde saiu poucas semanas depois. Nessa internação, recebeu pela primeira vez um diagnóstico de doença mental.

Em janeiro de 1927, ele foi preso novamente e abusou sexualmente três colegas de cela, espancando um deles até a morte. Mesmo cometendo esses crimes, foi posto provisoriamente em liberdade, voltando a ser preso no mesmo ano por agredir uma criança.
Testemunhas ainda relataram que Febrônio, mais cedo, havia cozinhado uma cabeça humana que furtara do cemitério do Caju, com isso ele teve um novo encaminhamento para o Hospital de Psicopatas, do qual recebeu alta após alguns meses.

No mesmo ano, a polícia foi avisada sobre um cadáver encontrado na Ilha do Ribeiro, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Ao lado do corpo estrangulado havia um boné, que um dos investigadores reconheceu como o usado por Febrônio poucos dias atrás, ao sair da internação.
Ele foi localizado em 31 de agosto do mesmo ano, Febrônio assumiu a responsabilidade por dois homicídios, que segundo ele, cometera “em holocausto ao deus-vivo, símbolo de sua religião”.

A imprensa começou a conceder grande destaque ao caso, os jornais noticiaram várias outras supostas vítimas, que entretanto ficaram excluídas do processo por falta de provas.
A repercussão dos crimes, também despertou o interesse de psiquiatras que avaliaram Febrônio e declararam que seus crimes haviam sido motivados pela doença mental de que era portador. O laudo redigido pelo psiquiatra Heitor Carrilho e apresentado ao tribunal pela defesa trazia as seguintes conclusões:

“Febrônio é portador de uma psicopatia constitucional caracterizada por desvios éticos, revestindo a forma de loucura moral e perversões instintivas, expressas no homossexualismo com impulsões sádicas, estado esse a que se juntam ideias delirantes de imaginação, de caráter místico. As suas reações anti-sociais, ou os atos delituosos de que se acha acusado, resultam desta condição mórbida que não lhe permite a normal utilização de sua vontade. Em consequência, a sua capacidade de imputação se acha prejudicada ou diminuída. Deve-se ter em conta, porém, que as manifestações anormais de sua mentalidade são elementos que definem a sua iniludível temibilidade e que, portanto, deve ele ficar segregado ad vitam, para os efeitos salutares e elevados da defesa social, em estabelecimento apropriado a psicopatas delinquentes.”

Com os argumentos científicos, a defesa conseguiu a absolvição de Febrônio, sendo determinado judicialmente o seu recolhimento, a partir de 6 de junho de 1929, no Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro.

Mas, ele fugiu no início de fevereiro de 1935. Aproveitando uma troca de turnos, Febrônio escalou um muro com uma corda feita de lençóis, mas foi recapturado no dia seguinte. Ao retornar ao manicômio, teve um ataque de ira e ódio, e tentou atacar o Dr. Carrilho. Ele permaneceu internado até a morte, em 27 de agosto de 1984, aos 89 anos de idade.

Do seu livro ‘Revelações do Príncipe de Fogo’, só restou uma cópia, que está na biblioteca particular de Mario de Andrade, no Instituto de Estudos Brasileiros, na Universidade de São Paulo.

 

Os Assassinatos:

 

13 de agosto de 1927 – O assassinato de Alamiro

Ao caminhar pela estrada da Tijuca, Febrônio encontra um homem chamado João Marimba. Perguntou como fazia para chegar à ilha do Ribeiro e João resolveu levá-lo até lá. Febrônio disse que era chofer e que estava pretendendo montar uma empresa de autoviação naquele local. Como estava vestido com uniforme de motorista, João acreditou. Em determinado ponto, João deixou Febrônio que seguiu adiante encontrando um menino de cerca de 10 anos parado na porta de uma casa. O menino perguntou a Febrônio se ele conhecia alguém que estivesse oferecendo emprego, pois, seu tio, Alamiro José precisava trabalhar.

Ainda com o pretexto de “montar uma empresa”, Febrônio se identificou como motorista, que estabeleceria uma linha de ônibus do Leblon até Porta d’Água, cruzando justamente aquele local.

O menino conduziu Febrônio até sua casa e apresentou este a seu pai, Antonio José, dizendo que ali estava para oferecer emprego a Alamiro. Antonio ficou preocupado, pois, Alamiro tinha umas feridas nas pernas e não poderia começar de imediato, mas Febrônio o tranquilizou dizendo que o emprego era para tomar conta de um depósito, que não haveria problema.

Após o jantar, Febrônio convenceu Alamiro a acompanhá-lo até a “empresa” para assinar uns papéis pois a empresa ia começar a funcionar naquele mesmo dia e que não tinham tempo a perder. Ao chegar à ilha do Ribeiro, Febrônio estendeu uma capa por cima das folhas ressecadas, tirou a roupa e pediu que Alamiro fizesse o mesmo. Hesitante, o rapaz tirou a calça e a cueca, mas percebeu a excitação sexual de Febrônio e recusou-se a deitar sobre a capa. Os dois entraram em luta corporal e Febrônio venceu ao conseguir estrangular Alamiro, que desmaiou. Depois, asfixiou Alamiro com um cipó e, como o corpo não serviria para mais nada, jogou as roupas de Alamiro sobre seu corpo deixando de fora apenas braços e pés.

29 de agosto de 1927 – Assassinato de Jonjoca

Ao vagar pela Ilha do Caju, avistou um menino de 10 anos de idade chamado João Ferreira e ofereceu-lhe alguns doces que estavam em seu bolso. Febrônio ofereceu emprego ao menino como copeiro na casa de um coronel do Exército, na avenida Pedro Ivo. Nesse momento, chega a mãe do menino, dona Beatriz, que não concordou com a história pois achava seu filho muito novo para trabalhar tão longe de casa. Com sua lábia, Febrônio argumentou bastante com a mãe do menino que, indecisa, pediu que este fosse até a oficina onde trabalhava o pai do menino e, qual fosse a decisão deste, ela acataria. Detalhe: Febrônio segui sozinho com o menino até a oficina do pai. Convencendo o pai de João Ferreira, o Jonjoca, disse que a mãe já tinha dado permissão para que o menino o acompanhasse, o que foi descoberto pelo pai ao chegar em casa à noite como a primeira mentira de Febrônio. Neste momento, Beatriz e João foram à delegacia e prestaram queixa. Ao ver fotos de Febrônio, reconheceram como sendo o homem que levou Jonjoca.

Enquanto isso, Febrônio levou o menino à Quinta da Boa Vista e depois se embrenharam pelas matas do largo do França. Quando isolados, prometeu a Jonjoca um terno, caso ele se deixasse tatuar no peito. Sem alternativa e com medo do facão que o homem carregava na cintura, o garoto permitiu que ele desenhasse várias letras em seu peito com a ajuda de uma agulha, linha e tinta vermelha. Depois tomaram um bonde e seguiram a pé para a ilha do Ribeiro, chegando lá à noite. Febrônio, então, o agarrou pelo pescoço, apertando-o até matá-lo, depois, despiu o menino, recolheu sua roupa numa trouxa bem apertada e jogou-a longe do corpo.

 

Crimes Sexuais:

Quatro meses antes dos assassinatos na ilha do Ribeiro, a polícia foi informada do misterioso desparecimento dos menores Jacob Edelman e Octávio de Bernardi.

Febrônio conheceu Jacob no Hospital Nacional de Alienados, onde ambos estavam internados e, com promessa de emprego em seu consultório dentário, em Mangaratiba, levou-o. Ao chegar no local, disse que o escritório estava fechado e precisava buscar outro garoto, Octávio, antes de pegar a chave.

Ofereceu um emprego também à Octavio, só que no matadouro de Santa Cruz, conseguindo assim permissão dos pais de Octávio. Juntos, foram os três para a estação de Sampaio, onde pegaram um carro para Santa Cruz e, de lá, seguiram para Mangaratiba.

Em local deserto, ameaçou Jacob com um estilete e, mandando que este se deitasse, tatuou as letras “D C V X V I” no peito do rapaz, enquanto Octávio assistia a tudo aterrorizado.

Alguns dias depois, Febrônio levou Jacob para a praia das Flecheiras onde abusou sexualmente dele, obrigando-o ainda a assistir todas as torturas que fez com Octávio, desde tatuagens até sevícias.

Furtou uma rede, fez um buraco no chão e colocou dentro 11 pedaços de cana, 11 bananas e 11 pedaços da camisa da vítima, fechou o buraco com terra e colocou uma pequena cruz de pau, dizendo que assim fazia para que qualquer um que fosse persegui-lo, ao pisar ali, esquecesse o que estava fazendo.

Em depoimento, disse que escolheu Jacob porque este era alemão, portanto, pertencia a raça superior.

Outra vítima identificada foi o menor Eduardo Ferreira dos Santos. Foi preso em flagrante com este, nas matas de Santa Teresa, ao tentar forçar o rapaz a praticar o que chamavam de “atos imorais”. Não conseguiu porque foi interrompido por um fiscal, João Cabral de Brito, que chamou as autoridades.

Manoel Alves, 18 anos, procurou a polícia pedindo uma guia para internar-se no Hospital Pedro II, pois, ao ser enganado com uma promessa de emprego, acompanhou um homem chamado Febrônio que gravara em seu peito as letras “D C V X V I” e muito o maltratava.

Em 15 de agosto de 1927, dona Maria e seu filho Benjamim, 14 anos, sofreram o mesmo golpe: acompanharam Febrônio, cruzando com o irmão de Benjamim, Joaquim, de 16 anos, que trocou de lugar com o irmão mais novo para o “emprego” oferecido por Febrônio. Este tatuou Joaquim, segurando-o pelo pescoço com a mão esquerda, que ainda o ameaçou de furar seus olhos. No primeiro descuido, Joaquim fugiu.

Álvaro Ferreira, 18 anos, morador do Arraial de Coroa Grande, contou que conheceu Febrônio no trem e este prometeu empregá-lo com a promessa de pagamento de 150.000 réis, convencendo-o a acompanhá-lo. Acompanhou-o, então, até a Tijuca, onde seguiram por mata adentro, onde Febrônio o convenceu a tatuar seu peito que, depois, quis praticar atos libidinosos com Álvaro. Este ao recusar, provocou a ira de Febrônio, que puxou uma faca e o ameaçou de morte. Ferido e apavorado, Álvaro consentiu.

Muitos dos casos de garotos com os quais Febrônio se relacionou e foram relatados nos jornais não se transformaram em processos criminais.