O LABIRINTO

Cheguei de carro na escola de meu filho, Leonard, e antes de ele sair do carro para entrar na escola, disse a ele:
-Filho, o papai irá trabalhar até tarde hoje, terá de ir de novo de ônibus para casa e ficar sozinho. Você já sabe as regras, certo?
-Sim, papai. Sem atender o telefone e não abrir a porta para estranhos.
-Isso, bom garoto. Pode ir agora. -Coloquei os cabelos loiros de meu filho para o lado e dei um beijo em sua testa.
-Ok. -Leonard disse e então saiu do carro.
Dirigi então para meu trabalho, eu gostava de chegar na hora, era o mais pontual da minha empresa, a Lou’s Company, e eu esperava que a droga de meu chefe, Lou, ia me promover á sub-dono, eu estava ansioso.
Cheguei ao trabalho, e vi que Matheus estava na sala do Sub-Dono, não entendi o por que, então Lou veio falar comigo.
-Oi, Eddie. Espero que entenda, sei que você é velho na empresa, mas Matheus é mais qualificado que você. Eu… sinto muito que você não conseguiu a promoção. Desculpe mesmo, Eddie.
”Hipócrita! Você sabe que eu sou mais qualificado do que ele. Seu bastardo infeliz!” esses foram os meus pensamentos na hora, minha mente estava agitada, e eu… furioso! Mas me conti, e disse:
-Ok, chefe. Eu entendo.
Eram 22:47, eu chegava em casa, ainda furioso por causa que não consegui a promoção. Abri a porta da frente, e ao entrar em minha casa, meu filho veio correndo em minha direção. Ele me abraçou, e disse:
-Oi, papai. Ainda bem que você volt…
Antes que ele terminasse a frase, eu o empurrei para longe.
-Me deixe em paz, Leonard. -disse, e notei que Leonard estava com medo de mim. Ele começou a chorar, e foi correndo direto á seu quarto. Eu nem jantei, estava muito irritado até para isso. Deitei em minha cama, e dormi.
Acordei, não estava em minha cama, ou em meu quarto, ou em minha casa. O chão era grudento, fiquei assustado.
-Bom dia, flor do dia. Achei que você nunca fosse acordar.
Olhei em minha frente, era um homem. Ele usava uma cartola enorme, estava de terno e gravata e se apoiava em uma bengala com a sua mão esquerda, ele aparentava ter uns 30 anos. Estava do lado de uma porta.
-Onde eu estou? Como cheguei aqui? -disse, totalmente confuso.
-Uma pergunta de cada vez… Eddie. -disse e sorriu para mim.
-Como sabe o meu nome?
-Ah. -o homem disse e soltou um riso- Eu sei tudo sobre você, onde trabalha, onde mora, sei até a sua banda favorita, que é Guns N’ Roses. Bom gosto, eles são bons. Mas sei, principalmente, que você é um babaca e que não se importa com seu filho.
-Eu, tenho problemas de temperamento. Eu amo ele, eu só estava irritado com ele, mas, eu o amo de verdade. -Preocupava-me com meu filho, acho que aquele homem o pegara.
-Eu sequestrei seu filho, pensei que não ia se importar.
-Devolva o meu filho, seu doente!
-Então, eu decidi fazer uma brincadeira, que tal você abrir essa porta, e passar por algumas… dificuldades, por assim dizer. E você o achará. Demonstre o seu amor por ele, e enfrente as coisas que achará através da porta.
-Eu tenho escolha?
-Não. -o homem disse, e então, como um fantasma, desapareceu.
Me levantei, fui em direção á porta. Então, com medo e curiosidade, abri a porta.
Aquilo parecia um labirinto.
-Não se preocupe, Leonard. Eu acharei você. -então, me adentrei no labirinto.
Ao entrar no labirinto, fiquei ao menos uns 5 minutos andando, estava tudo tão escuro. Andando as cegas, cheguei até a me machucar em algumas pedras, pois eu estava descalço. E então, encontrei outra porta. E em cima daquela porta, tinha uma lâmpada que a iluminava, aquele maldito havia planejado tudo mesmo.
Do lado da porta, também havia uma pequena mesa, e um bilhete. Peguei o bilhete e li, estava escrito o seguinte: ”É agora que a brincadeira começa, Eddie. Escolha a sua arma… vai precisar.” O desgraçado nem ao menos botou armas de verdade, apenas alguns facões. Peguei o facão, tomei fôlego e abri a porta.
Escuridão. Não havia nada além disso quando eu entrei através da porta. A porta se fechou sozinha. As luzes também se acenderam sozinhas. Ao ver o que havia naquela sala eu disse:
-Oh, merda!
O chão da sala estava cheio de baratas, ratos e aranhas -do tipo venenosas-, e no final da sala, que surpresa, uma porta! Tive medo de seguir adiante. Mas pensei no sorriso de meu filho, lembrei dele. Tomei coragem, fui correndo o máximo que pude, tentando desviar dessas coisas nojentas, e então ao pisar em algumas baratas enquanto corria, eu resbalei no sangue delas.
Gritei, não conseguia me levantar, os ratos me mordiam, estava doendo demais. Eu não podia deixar as aranhas me morderem, tentei afastá-las com meu facão, elas morderam minha mão esquerda. Não consigo descrever a dor que senti naquele momento. Fui rastejando até a porta, faltava pouco. Não me importei com a dor, eu só lembrava de meu filho. Consegui chegar até a porta. Entrei na porta, com a sala toda escura de novo. Fiquei parado um instante, eu sentia o veneno em minhas veias. Não havia outra escolha, eu teria de amputar minha mão, antes que o veneno se alastrasse sob meu corpo e me matasse. Disse:
-Por Leonard!
Cortei a minha mão esquerda. Gritei de dor. Rasguei um pedaço da minha calça e o coloquei cuidadosamente para estancar o sangramento. Aquilo estava doendo demais!
Fui em frente, com o facão em minha mão direita, e as luzes se acenderam sozinhas de novo. E quando eu achava que não dava para piorar. Piorou! Era um palhaço. A droga de um palhaço, cara. Eu tinha medo de palhaço desde meus 8 anos, e só piorou quando eu soube da história de John Wayne Gacy. O palhaço estava apenas parado ali, com um sorriso enorme estampado no rosto. Oh, Deus, como aquele sorriso era horrível. A luz da sala começou á piscar, chegou á ficar alguns segundos apagado, o que me deixava com mais medo. E, então, a luz voltou. O palhaço não estava mais lá. O medo se apossou de mim. Minha mão e minhas pernas tremiam. Olhei para todos os cantos, ele realmente sumira. A luz começou á piscar de novo, e se apagou. Comecei a andar para frente para chegar o quanto antes na porta, mesmo no escuro. E quando a luz voltou, o palhaço estava na minha frente. E estava com um machado.
-Venha brincar comigo. Eu não vou te machucar. -ele disse, enquanto se aproximava de mim com o seu machado.
Segurei firmemente o facão, e corri em direção ao palhaço, esfaqueei ele, bem no peito. Ele caiu no chão, e quando ele caiu eu comecei á esfaquear ele, várias, e várias vezes.
-Eu tive medo de vocês a minha vida inteira, mas agora, não mais.
Me acalmei, todo sujo de sangue, e fui em direção á próxima porta, com medo do que iria encontrar, porque aquela merda estava ficando cada vez pior. Abri a porta. E quando me adentrei nela, as luzes se acenderam, como sempre. Arregalei os olhos e abri a boca de pavor. Aquilo que eu estava vendo, não podia ser verdade.
-V-você?!
Guardei o facão naquele exato momento. Era ela. Eu simplesmente, não podia acreditar naquilo. Era Karen, minha esposa que faleceu. Ela caía aos pedaços, com uma aparência horrível, como no dia em que foi encontrada morta, e os seus cabelos longos e loiros que foram maravilhosos e lindos um dia, estava cheios de terra.
-Oi, amor. -Karen disse, vindo em minha direção. -Senti sua falta. -disse, me abraçando.
Eu estava pálido, estava parado, como um poste, enquanto ela me abraçava. Decidi tomar uma reação, e á abracei também. E a apertei, como um sinal de afeto, com a única mão que me restava.
-Amor, por que me deixou morrer?! -ela disse, e começou á chorar.
Eu, então, comecei á chorar também, pois me lembrei do dia em que cheguei em casa e a encontrei morta. Eu estava trabalhando naquele dia, quando a minha mulher me ligou, e disse ”Querido, tem um homem estranho do outro lado da rua, olhando para a nossa casa. Estou com medo, você poderia sair do trabalho mais cedo?” e eu respondi ”Ah, sério que me ligou só para isso, Karen? Por favor, né. Eu estou trabalhando duro aqui, faça um favor a si mesma e PARE DE SER PARANOICA!” e essa foi a nossa última conversa. Quando cheguei em casa, a polícia estava lá. E me contou que ela havia sido brutalmente estuprada e assassinada. Desde então, me senti culpado pela morte dela. Pelo menos não havia perdido tudo, porque o Leonard estava na casa de um amigo naquele dia.
-Karen, você tem de entender, querida, eu… estava… trabalhando naquele dia.
Ela então se soltou do abraço, e me deu um tapa na cara.
-Como pôde?! Preferiu seu trabalho, á mim! -Karen disse. Ela chorava demais. E eu também. -Mas tudo bem. Eu te perdoô, amor. Eu quero ficar com você para sempre, aqui, nesse lugar. Nós ficaremos juntos para sempre, só eu e você.
Pensei, aquilo era interessante. Era tudo que eu queria, ficar com ela. Tudo que sempre quis, desde que ela morreu. Sorri para ela, e disse:
-Me desculpe, querida. Mas eu não posso ficar. Tenho de ir salvar nosso filho. Eu o amo, e tenho que cuidar dele.
Ela sorriu para mim, e disse:
-Você vai ficar comigo. De um jeito… -ela disse, e eu a vi puxando uma faca escondida. -Ou de outro!
Ela tentou me esfaquear, desviei, mas caí no chão. Fui tentar pegar o meu facão, que havia prendido no cinto de minha calça, era difícil ser rápido só com uma mão. Puxei o facão, mas era tarde demais. Ela me esfaqueou bem no peito. Doía, doía demais!
-Agora, podemos ficar juntos.
Usei toda a força de minha mão direita, e cravei o facão bem na testa dela. Ela caiu no chão e desapareceu. Sentado no chão, eu tirei a faca que estava cravada em meu peito. E o sangue jorrou pelo chão. O chão acabou de passar da cor branca para a cor vermelha. Eu sangrava demais, segurava o ferimento para parar de sangrar. Fui meio tonto até a porta. Abri-a. Quando entrei, vi o homem de terno e meu filho sentado em uma cadeira.
-Papai. Senti sua falta. -Leonard disse, sorrindo. Ver aquele sorriso de novo, me deixava muito feliz.
-Ora, ora. E não é que você conseguiu? Meus parabéns, Eddie. -o homem de terno disse, e bateu palmas.
-Vai para o inferno!
-Nossa, Eddie. Quanta má educação. -o homem olhou para mim, de cima á baixo- Você está um porre! Olhe só para você, quase á beira da morte.
Fui em direção a meu filho. O peguei no colo com a minha mão.
-Agora, nos tire daqui. -disse, com meu filho no colo.
-Auf Wiedersehen. -o homem de terno disse, sorrindo.
-E o que diabos significa isso?
-”Até a próxima”. -o homem disse, e então, estalou os dedos. E de repente, eu e Leonard estavamos em casa de novo.
Eu me abaixei, e o abracei como nunca havia feito antes.
-Filho, me perdoe por tudo que eu fiz. Todas as noites que chegava irritado e descontava em você. Eu te amo, de todo o coração. Fui um babaca a minha vida inteira, não seja igual a mim. -disse, e o beijei na testa. -Você é a melhor coisa que já me aconteceu.
Senti naquela hora uma dor horrenda, a pior de minha vida, como uma fincada no coração. Então, caí de cara no chão.
-Papai? Papai! Por favor, papai. Acorde. Eu te amo. Eu não quero ficar sem você. -Leonard disse, abraçando o meu corpo e chorando demais.
Acabou para mim. Eu estava morto. Mas ao menos, fiz algo de bom. Salvei meu filho.